Camex mapeia prejuízo ao Brasil com crise argentina Featured

17 Outubro 2018 Written by 
Published in Fecomercio

mauricio

As exportações brasileiras têm "alta sensibilidade" ao agravamento da crise argentina, mas o aumento das vendas para outros países vizinhos pode compensar quase integralmente seus efeitos negativos, conforme aponta um documento reservado do governo, que avalia os impactos da desvalorização do peso e da volta das retenções no comércio bilateral. Uma queda de 1% no PIB da Argentina - justamente a projeção da Casa Rosada para o desempenho da economia em 2018 - deverá reduzir em 4,4% os embarques brasileiros ao país. Só isso teria como efeito uma retração das vendas em US$ 770 milhões neste ano, segundo estudo produzido pela Câmara de Comércio Exterior (Camex) como subsídio para o conselho de ministros do colegiado, ao qual o Valor teve acesso.

As exportaç&otilde ;es de automóveis à Argentina, diz o estudo, devem alcançar "no máximo" cerca de 700 mil unidades. Trata-se de um número bem abaixo dos 900 mil carros que a indústria nacional pretendia remeter originalmente neste ano. O mercado vizinho absorve 40% das vendas ao exterior de montadoras instaladas no Brasil.A equipe da Camex fez simulações também sobre os efeitos do decreto 793, publicado pela Casa Rosada no início de setembro, que estabeleceu impostos sobre as exportações de produtos agrícolas e manufaturados - as chamadas "retenciones". Para fazer as estimativas, o estudo considerou um câmbio de 38 pesos por dólar. De fato, a cotação tem se mantido em torno disso nas últimas semanas.

O argumento do presidente Mauricio Macri e de sua equipe econômica é que a depreciação cambial eleva a competitividade local e que os exportadores podem recolher o tributo como forma de ajudar no ajuste fiscal e alcançar o déficit primário zero em 2019. Apesar do peso mais fraco, o estudo da Camex vê encarecimento dos produtos argentinos e estima queda de 27,2% das vendas ao Brasil por causa da medida. Dada a integração das cadeias produtivas, o novo tributo fará a Argentina importar 10,15% menos das empresas brasileiras. Há menção ainda, no relatório de 46 páginas, aos reflexos diretos da desvalorização do peso.

Para cada 10% de depreciação na taxa de câmbio real do país vizinho, as exportações brasileiras caem 4%. O dado, no entanto, é considerado pouco confiável pela Camex em termos estatísticos. Um ponto que o estudo ressalta é a ausência de perdas líquidas significativas. A diminuição das exportações à Argentina é bastante atenuada pelo aumento das vendas para outros mercados, principalmente sul-americanos, em razão do redirecionamento das empresas. Prevê-se uma alta de 2,21% dos embarques ao Paraguai, de 1,88% à Bolívia, de 1,81% ao Uruguai, de 0,84% ao Chile e de 0,63% ao Canadá - além do que normalmente se exportaria a esses países. Tudo somado, estima-se uma perda de somente 0,96% às exportações brasileiras totais e de inexpressivos 0,03% para o PIB. Hoje, em Brasília, autoridades da Comissão de Produção e Comércio Brasil-Argentina se reúnem para discutir o intercâmbio bilateral.

O encontro será encabeçado pelo ministro brasileiro da Indústria e Comércio Exterior, Marcos Jorge de Lima, e pelo ministro argentino da Produção, Dante Sica, cuja p asta foi fortalecida recentemente na reformulação do gabinete promovida por Macri. Sica absorveu os antigos ministérios da Agricultura e do Trabalho, que perderam status e se transformaram em secretarias. Marcos Jorge disse ao Valor que a ideia é avançar em temas de convergência regulatória - os dois países assinaram recentemente um acordo para harmonização de normas na indústria automotiva - e de simplificação de procedimentos alfandegários. Ele pretende fazer uma análise, com o colega argentino, da proposta de adiamento do livre-comércio para automóveis e autopeças. A previsão do acordo em vigência era de fim do comércio administrado em 2020, mas a Argentina quer estender o prazo para 2023. O país propõe manter o índice "flex" atual, que limita a quantidade de exportações brasileiras. < em>Valor Econômico

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